«Falar do Tarrafal ou de outras prisões fascistas não deve ser uma simples evocação daquilo que por lá passámos. Ao falar do Tarrafal e das outras prisões importa, em primeiro lugar, saber que elas existiram porque existiu o fascismo. Elas são uma consequência directa do regime de terror que durante 48 anos massacrou o nosso povo e colocou o nosso país na cauda das nações civilizadas.»
«Eu e todos os ex-presos do Tarrafal sentimos profunda indignação quando deparamos com a data gloriosa do 25 de Abril a sofrer os maiores insultos.»
Estas palavras são de João Faria Borda (já falecido), um homem que passou dezasseis anos e três meses no Campo de Concentração do Tarrafal.
Escutei-as em 1978 e ficaram-me na memória e no registo de um longo depoimento sobre o “Campo da Morte Lenta”, nome por que ficou conhecido o Campo de Concentração do Tarrafal. O depoimento foi publicado, nesse ano, no jornal “Batalha Vertical”, do Sindicato da Indústria e Comércio Farmacêutico, de que João Faria Borda era então sócio, por trabalhar numa empresa desse sector.
Agora que alguns senhores se “lembraram” de comemorar os 30 anos da Revolução de Abril sem o R, numa tentativa de branqueamento do regime que vigorou em Portugal durante 48 anos; hoje, dia 23 de Abril, data da criação oficial do tenebroso Campo de Concentração do Tarrafal, em 1936, lembrei-me das palavras de João Faria Borda, com quem conversei várias vezes, e do referido depoimento.
Aqui e nos posts seguintes ficam algumas passagens do depoimento (é muito longo) e a minha singela homenagem a um resistente anti-fascista que toda a vida lutou pela Liberdade.
Quem foi Faria Borda
João Faria Borda, natural de Alcobaça, filho de um camponês, nasceu a 18 de Novembro de 1912.
Em 1932, então com 20 anos de idade, assentou praça na Armada, onde desenvolveu diversa actividade política.
Como dirigente da ORA – Organização dos Revolucionários da Armada – participou, juntamente com outros anti-fascistas, na revolta dos navios de guerra «Bartolomeu Dias», «Afonso de Albuquerque» e «Dão», em Setembro de 1936, naquela que ficou conhecida como «A Revolta dos Marinheiro».
Em consequência dessa participação, depois de julgado em tribunal militar especial para crimes de natureza política e porque no tribunal assumiu a responsabilidade pela acção revolucionária praticada, foi condenado a vinte anos de prisão.
Esteve uns dias na Penitenciária e foi, de seguida, enviado para o Tarrafal (tinha 23 anos), onde chegou a 29 de Outubro de 1936, com outros presos, entre eles nomes como Bento Gonçalves, secretário do Partido Comunista, Mário Castelhano, anarquista, Alfredo Caldeira, do Comité Central do PCP, e tantos outros.
Faria Borda permaneceu dezasseis anos e três meses no campo de concentração. Depois de ter passado ainda mais um ano na cadeia de Peniche foi restituído à liberdade. Tinha então 41 anos de idade!
Voltou ainda a ser preso em 1959/60 por actividade cooperativa.
25 de Abril de 1974
Foi há 30 anos
O dia que mudou Portugal
(marco que estabelece o antes do 25 de Abril e o depois)
Revolução que marcou o fim do fascismo português e uma das passagens mais bonitas da história da humanidade.
Uma revolução sem sangue e cheia de esperança.
É bom lembrarmos tudo isso porque as pessoas tên a memória curta e a História tem tendência a repetir-se...
Abraço, WB
Não esqueçam nunca estes homens e mulheres que lutaram contra o fascismo que tiveram suas vidas destruidas,apenas para que houvesse liberdade.
Afixado por: antonietapaulo em abril 30, 2004 01:41 PM